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29/06/2016 - Barrar o Uber seria um ataque ao avanço da era digital

* Por Jeovani Salomão

Brasília está no ápice de um debate que ocorre, simultaneamente, em outras 400 cidades pelo mundo: como resolver o conflito entre o Uber e os táxis. O avanço da era digital vai provocar, ao longo dos anos, muitos outros conflitos, na medida em que vai propiciar mais eficiência e comodidade, além de baratear serviços para as empresas e seus clientes, muitas das vezes, com a extinção de profissões tradicionais e dos empregos associados a elas.

No caso presente, faz-se necessário compreender a raiz do problema, para evitar soluções rasteiras, com baixa efetividade, diante do rápido quadro evolutivo das mudanças sociais provocadas pela Tecnologia da Informação. O Uber é tão somente um exemplo bem-sucedido de uma tendência mundial que se caracteriza, em poucas palavras, pela venda da ociosidade e a troca a regulação do estado pela autorregulação. Por óbvio, que o sucesso desse modelo só é possível graças ao amplo acesso aos dispositivos móveis. Para quem ainda não conhece, tal movimento pode ser verificado em outras áreas, como no aluguel de hospedagens e de vagas de garagem.

Por mais bem intencionados que sejam os governos, faço aqui uso mais amplo da palavra, incluindo todos os poderes, dificilmente terão sucesso em barrar o progresso da era digital e proteger artificialmente o que se tornar obsoleto. O Uber, seus concorrentes e sucessores, inexoravelmente vão reduzir a demanda pelo uso de Taxi e muitos taxistas perderão seus empregos. Essa é a realidade e precisa ser tratada de forma aberta e transparente. Qualquer lei, artifício legal ou outro tipo de imposição do estado será incapaz, a longo prazo, de impedir o progresso dos novos negócios da era digital.

Em outras palavras, o caminho de solução não pode ser conter o avanço digital nos serviços de massa, especialmente naqueles de utilidade pública, como é o caso do transporte. Ao contrário disso, as autoridades deveriam se alinhar aos efeitos positivos da inovação tecnológica, de forma a proporcionar melhores serviços à população. Em relação ao declínio de profissões e serviços, é papel do poder público criar alternativas de como incluir essas pessoas na sociedade do futuro.

Sendo assim, portanto, os governos das 400 cidades que estão vivendo o dilema Uber X Taxis deveriam concentrar seus esforços em uma transição digna para aqueles bons taxistas que prestaram importantes serviços para a sociedade durante décadas e, cuja profissão, vai se reduzir substancialmente e, talvez, ser extinta. Ao invés disto, a maioria dos debates concentra-se em regular, ou em como regular, o Uber – e os próximos que virão, tentando encontrar um caminho do meio entre o desejo de uma classe e o desejo da população. A sociedade quer acesso aos serviços da era digital e não quer que o Governo crie mecanismos artificiais para interferir em sua livre escolha.

Brasília, neste cenário, tem uma oportunidade única. Em outubro, irá sediar o maior congresso mundial sobre o tema: o WCIT 2016, com o tema “As promessas da era digital e seus desafios”. É um evento itinerante que ocorrerá pela primeira vez na América do Sul e que permitirá que assuntos como estes sejam debatidos por autoridades do mundo inteiro. Tradicionalmente a comunidade internacional participa em peso do evento, no caso da última edição, no México, foram mais de 70 países. Isso permitirá que experiências bem-sucedidas de todo o mundo sejam debatidas e caminhos de solução sejam encontrados, respeitando as peculiaridades do nosso imenso país.  Os reflexos do evento são tão positivos que, um ano e meio após a edição de Guadalara, a cidade está sendo apontada pela mídia internacional como o novo Vale do Silício.

Para terminar sem ficar apenas no plano das ideias, gostaria de apontar uma solução prática de transição. Os governos gastam uma significativa quantidade de dinheiro em deslocamento urbano. Refiro-me, especificamente, ao transporte, em serviço, dos agentes públicos. Para tanto, o governo detém frotas de carros e motoristas, ora próprias, ora de terceiros. Convido Brasília a inovar, criando um projeto que transfira aos taxistas todo o transporte de agentes públicos em serviço. Assim, o governo poderá economizar, ao mesmo que tempo que atende os anseios de uma categoria e permitirá que a população em geral fique livre para escolher como vai se locomover.

 



*Jeovani Ferreira Salomão é presidente da Federação das Associações das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (ASSESPRO NACIONAL) e co-organizador do WCIT Brasil 2016

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